Em menos de uma semana, três eventos encadeados expõem fissuras na rede conservadora global: a queda e prisão do aliado paraguaio, a derrota eleitoral do premier israelense e a vitória do petista no Brasil redesenham o tabuleiro político internacional.
A primeira semana de novembro de 2026 entrou para a história como um divisor de águas para a direita internacional. Em um intervalo de poucos dias, o presidente paraguaio Santiago Peña foi destituído, preso e teve pedido de prisão preventiva formulado por seu próprio Ministério Público; o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu perdeu a maioria no Knesset nas eleições de 27 de outubro; e Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição presidencial brasileira, derrotando o candidato apoiado por Jair Bolsonaro e por setores do governo israelense. Os três acontecimentos, embora distintos, conectam-se em uma mesma trama: o desgaste de alianças que pareciam sólidas até recentemente.
Donald Trump, referência da direita populista global, viu seu capital político encolher após a derrota republicana nas legislativas de 2026. Foto: Shealah Craighead / Wikimedia Commons (Domínio Público).
1. Paraguai: de aliado promissor a preso político
A trajetória de Santiago Peña ruiu em questão de horas. Na quinta-feira, 5 de novembro, ele renunciou à presidência em meio ao escândalo do Ueno Bank, o maior banco digital do país, que entrou em colapso após receber vultosos recursos de entidades estatais e previdenciárias. No dia seguinte, o Senado paraguaio aprovou seu impeachment por “mal desempenho de funções” com os 44 votos dos senadores presentes. Minutos depois da destituição, que lhe retirou os foros privilegiados, a Polícia Nacional o deteve em sua residência em Assunção.
A ordem de prisão foi expedida pela Fiscalía por “lesão de confiança”, e o ex-presidente passou a noite sob custódia no Regimento Escolta Presidencial, uma unidade militar das Forças Armadas. No sábado, 7 de novembro, o Ministério Público formalizou a imputação por lesão de confiança como instigador e por administração em proveito próprio como autor, e solicitou a prisão preventiva de Peña. O documento aponta que ele “teria intervido em circunstâncias relacionadas com a colocação, renovação e permanência de importantes somas de dinheiro provenientes de entidades públicas e previdenciárias” no Ueno Bank, instituição com a qual “teria mantido uma relação econômica e corporativa prévia”.
Santiago Peña, destituído pelo Senado e preso em 6 de novembro de 2026. Foto: Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Peña era um dos elos mais visíveis da articulação entre Washington, Tel Aviv e os governos conservadores sul-americanos. Sua queda fragiliza a rede que tentava consolidar uma agenda comum na região e abre um vácuo político que o novo presidente, Pedro Alliana, terá de administrar sob forte pressão da opinião pública e do Judiciário.
2. Israel: Netanyahu perde a maioria e entra em crise política
Do outro lado do Atlântico, Benjamin Netanyahu sofreu o revés eleitoral mais significativo de sua carreira. Nas eleições legislativas de 27 de outubro de 2026, seu bloco conquistou 53 das 120 cadeiras do Knesset — oito abaixo das 61 necessárias para formar governo. O Likud, seu partido, caiu de 32 para 27 deputados, enquanto o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot somou 48 assentos e os partidos árabes alcançaram uma representação histórica de 19 cadeiras.
Netanyahu permanece no cargo de primeiro-ministro interino enquanto as negociações para a formação de uma coalizão se desenrolam, mas o resultado enfraqueceu drasticamente sua posição. A oposição já sinaliza que pode tentar compor uma maioria alternativa com apoio externo dos partidos árabes, o que colocaria fim a mais de uma década de hegemonia do Likud. O premier, que já foi o mais longevo da história de Israel, agora luta para evitar que seu legado seja enterrado pelas urnas.
Benjamin Netanyahu perdeu a maioria no Knesset nas eleições de outubro de 2026. Foto: Governo de Israel / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).
A derrota de Netanyahu tem repercussões diretas sobre sua ofensiva diplomática na América Latina. Sem a mesma margem de manobra interna, o premier israelense vê suas iniciativas externas — como a extensão dos chamados “Acordos de Isaac” — perderem tração. A aproximação com governos como o de Javier Milei, na Argentina, e o apoio velado à candidatura de Flávio Bolsonaro no Brasil tornam-se apostas ainda mais arriscadas em um cenário de enfraquecimento político em casa.
3. Brasil: Lula vence e se consolida como contraponto regional
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno de 25 de outubro de 2026 — com 51,77% dos votos válidos — coroou uma semana de reveses para a direita internacional. O resultado foi interpretado por analistas como uma rejeição ao alinhamento irrestrito com Washington e Tel Aviv e como um sinal de que o eleitorado brasileiro optou pela autonomia diplomática e pela defesa de instituições democráticas.
Lula assume em 1º de janeiro de 2027 com um Congresso de perfil conservador, mas com um capital político que o credencia a liderar uma coalizão de países latino-americanos em torno de uma agenda própria — distante das prioridades da direita global. O Brasil, pela dimensão econômica e pelo peso diplomático, deixa de ser um possível satélite da ofensiva israelense-americana e se reposiciona como ator central na definição dos rumos da região.
Lula venceu a eleição presidencial de 2026 e assume em 1º de janeiro de 2027. Foto: Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
4. O que une os três colapsos: uma rede em desintegração?
Os eventos de novembro de 2026 não são coincidências isoladas. Eles revelam que a arquitetura política construída pela direita internacional nos últimos anos — baseada na aliança entre Trump, Netanyahu, Bolsonaro e seus pares latino-americanos — está sob stress extremo. A prisão de Peña remove um elo importante dessa corrente; a derrota de Netanyahu elimina o principal articulador da ofensiva israelense na região; e a vitória de Lula fecha a porta para um alinhamento automático do Brasil com essa agenda.
Não se trata, porém, do fim da direita como força política. Ela segue forte em parlamentos, governos estaduais e no eleitorado de diversos países. O que está em curso é uma reconfiguração dolorosa: alianças que funcionavam em um ciclo de ascensão agora cobram um preço alto, e os líderes que apostaram todas as fichas na projeção internacional de Trump e Netanyahu precisam recalcular suas estratégias. O tabuleiro mudou — e as peças ainda estão sendo reposicionadas.
Fontes consultadas
- EFE — La Policía de Paraguay detiene al expresidente Santiago Peña tras su destitución (07/11/2026)
- RTVE — La Fiscalía de Paraguay solicita prisión preventiva contra el destituido presidente Peña por el caso Ueno bank (07/11/2026)
- Jornal do Commercio (JC/UOL) — Israel confirma perda de maioria de Netanyahu e abre disputa por coalizão com partidos árabes (30/10/2026)
- Diário do Centro do Mundo — Netanyahu é derrotado em Israel e perde maioria no Parlamento (29/10/2026)

