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O recuo da direita no mundo: Do Paraguai a Israel, dos EUA ao Brasil

O recuo da direita no mundo: Do Paraguai a Israel, dos EUA ao Brasil



"A maré virou. Santiago Peña preso no Paraguai, Netanyahu sem maioria para governar em Israel, Donald Trump encurralado por derrotas e processos nos Estados Unidos e Lula vitorioso no Brasil. O eixo conservador global que parecia imbatível há dois anos hoje está na defensiva em quatro continentes."  

Em menos de uma semana, três eventos encadeados expõem fissuras na rede conservadora global: a queda e prisão do aliado paraguaio, a derrota eleitoral do premier israelense e a vitória do petista no Brasil redesenham o tabuleiro político internacional.

 A primeira semana de novembro de 2026 entrou para a história como um divisor de águas para a direita internacional. Em um intervalo de poucos dias, o presidente paraguaio Santiago Peña foi destituído, preso e teve pedido de prisão preventiva formulado por seu próprio Ministério Público; o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu perdeu a maioria no Knesset nas eleições de 27 de outubro; e Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição presidencial brasileira, derrotando o candidato apoiado por Jair Bolsonaro e por setores do governo israelense. Os três acontecimentos, embora distintos, conectam-se em uma mesma trama: o desgaste de alianças que pareciam sólidas até recentemente.

Retrato oficial de Donald Trump

Donald Trump, referência da direita populista global, viu seu capital político encolher após a derrota republicana nas legislativas de 2026. Foto: Shealah Craighead / Wikimedia Commons (Domínio Público).

1. Paraguai: de aliado promissor a preso político

A trajetória de Santiago Peña ruiu em questão de horas. Na quinta-feira, 5 de novembro, ele renunciou à presidência em meio ao escândalo do Ueno Bank, o maior banco digital do país, que entrou em colapso após receber vultosos recursos de entidades estatais e previdenciárias. No dia seguinte, o Senado paraguaio aprovou seu impeachment por “mal desempenho de funções” com os 44 votos dos senadores presentes. Minutos depois da destituição, que lhe retirou os foros privilegiados, a Polícia Nacional o deteve em sua residência em Assunção.

A ordem de prisão foi expedida pela Fiscalía por “lesão de confiança”, e o ex-presidente passou a noite sob custódia no Regimento Escolta Presidencial, uma unidade militar das Forças Armadas. No sábado, 7 de novembro, o Ministério Público formalizou a imputação por lesão de confiança como instigador e por administração em proveito próprio como autor, e solicitou a prisão preventiva de Peña. O documento aponta que ele “teria intervido em circunstâncias relacionadas com a colocação, renovação e permanência de importantes somas de dinheiro provenientes de entidades públicas e previdenciárias” no Ueno Bank, instituição com a qual “teria mantido uma relação econômica e corporativa prévia”.

Santiago Peña, ex-presidente do Paraguai

Santiago Peña, destituído pelo Senado e preso em 6 de novembro de 2026. Foto: Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Peña era um dos elos mais visíveis da articulação entre Washington, Tel Aviv e os governos conservadores sul-americanos. Sua queda fragiliza a rede que tentava consolidar uma agenda comum na região e abre um vácuo político que o novo presidente, Pedro Alliana, terá de administrar sob forte pressão da opinião pública e do Judiciário.

2. Israel: Netanyahu perde a maioria e entra em crise política

Do outro lado do Atlântico, Benjamin Netanyahu sofreu o revés eleitoral mais significativo de sua carreira. Nas eleições legislativas de 27 de outubro de 2026, seu bloco conquistou 53 das 120 cadeiras do Knesset — oito abaixo das 61 necessárias para formar governo. O Likud, seu partido, caiu de 32 para 27 deputados, enquanto o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot somou 48 assentos e os partidos árabes alcançaram uma representação histórica de 19 cadeiras.

Netanyahu permanece no cargo de primeiro-ministro interino enquanto as negociações para a formação de uma coalizão se desenrolam, mas o resultado enfraqueceu drasticamente sua posição. A oposição já sinaliza que pode tentar compor uma maioria alternativa com apoio externo dos partidos árabes, o que colocaria fim a mais de uma década de hegemonia do Likud. O premier, que já foi o mais longevo da história de Israel, agora luta para evitar que seu legado seja enterrado pelas urnas.

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel

Benjamin Netanyahu perdeu a maioria no Knesset nas eleições de outubro de 2026. Foto: Governo de Israel / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

A derrota de Netanyahu tem repercussões diretas sobre sua ofensiva diplomática na América Latina. Sem a mesma margem de manobra interna, o premier israelense vê suas iniciativas externas — como a extensão dos chamados “Acordos de Isaac” — perderem tração. A aproximação com governos como o de Javier Milei, na Argentina, e o apoio velado à candidatura de Flávio Bolsonaro no Brasil tornam-se apostas ainda mais arriscadas em um cenário de enfraquecimento político em casa.

3. Brasil: Lula vence e se consolida como contraponto regional

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno de 25 de outubro de 2026 — com 51,77% dos votos válidos — coroou uma semana de reveses para a direita internacional. O resultado foi interpretado por analistas como uma rejeição ao alinhamento irrestrito com Washington e Tel Aviv e como um sinal de que o eleitorado brasileiro optou pela autonomia diplomática e pela defesa de instituições democráticas.

Lula assume em 1º de janeiro de 2027 com um Congresso de perfil conservador, mas com um capital político que o credencia a liderar uma coalizão de países latino-americanos em torno de uma agenda própria — distante das prioridades da direita global. O Brasil, pela dimensão econômica e pelo peso diplomático, deixa de ser um possível satélite da ofensiva israelense-americana e se reposiciona como ator central na definição dos rumos da região.


Lula venceu a eleição presidencial de 2026 e assume em 1º de janeiro de 2027. Foto: Presidência da República / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

4. O que une os três colapsos: uma rede em desintegração?

Os eventos de novembro de 2026 não são coincidências isoladas. Eles revelam que a arquitetura política construída pela direita internacional nos últimos anos — baseada na aliança entre Trump, Netanyahu, Bolsonaro e seus pares latino-americanos — está sob stress extremo. A prisão de Peña remove um elo importante dessa corrente; a derrota de Netanyahu elimina o principal articulador da ofensiva israelense na região; e a vitória de Lula fecha a porta para um alinhamento automático do Brasil com essa agenda.

O que observar daqui para frente: a formação do novo governo israelense, o desenrolar do processo judicial contra Peña no Paraguai e os primeiros movimentos diplomáticos de Lula podem confirmar se a direita global está diante de uma derrocada irreversível ou de mais uma reorganização tática.

Não se trata, porém, do fim da direita como força política. Ela segue forte em parlamentos, governos estaduais e no eleitorado de diversos países. O que está em curso é uma reconfiguração dolorosa: alianças que funcionavam em um ciclo de ascensão agora cobram um preço alto, e os líderes que apostaram todas as fichas na projeção internacional de Trump e Netanyahu precisam recalcular suas estratégias. O tabuleiro mudou — e as peças ainda estão sendo reposicionadas.


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